The Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das
Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz

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Title: As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes
       Janeiro a Fevereiro de 1873

Author: Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz

Release Date: January 6, 2005 [EBook #14620]

Language: Portuguese

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[Illustration: AS FARPAS--R. ORTIGO--EA DE QUEIROZ]

RAMALHO ORTIGO--EA DE QUEIROZ

AS FARPAS

CHRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES

2. ANNO

Janeiro a Fevereiro de 1873




Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder,
da escravido dos partidos, da venerao da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande
universo, e da adorao de mim mesmo.

P.J. PROUDHON




SUMMARIO

As idas no parlamento e a immobilidade egypcia. O discurso da cora. Os
partidos. As frmas do governo. Governo livre e governo despotico.
Republica ou monarchia? A nossa questo, e o nosso voto. Qual  o
governo que nos espera. As maiorias e as opposies. Perfil da sociedade
portugueza. O descontentamento geral. A nossa intelligencia, a nossa
virtude, o nosso direito  liberdade--Reforma do exercito e dos
estribos--As conspiraes, as revoltas e as opinies do parlamento--O
enterro da senhora duqueza de Bragana.--Um conselho  fora
armada.--Prova-se que a camara dos deputados no tem amolecimento
cerebral. Uma figura de rhetorica. O ex-rei Amadeu e varios outros
personagens historicos inclusivamente o sr. Arrobas, com uma palavra
sobre as botas de s.ex.--Resposta quelle que jurou assassinar-me.--Os
srs bispos do ultramar--O redactor do _Espectro_ e o ministro do reino.
A inviolabilidade domestica. A calumnia. A publicidade--Joseph Prudhome
e Pickuick.

Toda a animao parlamentar, toda a vida representativa no mez corrente
se resumiu no seguinte: a discusso da resposta ao discurso da cora.
Esta discusso partindo de um ponto--a approvao do projecto--, para
findar exactamente no mesmo ponto de que partiu--a approvao do dito
projecto--,  verdadeiramente a imagem constitucional da kneph dos
egypcios, a velha serpente com o rabo na bocca, o symbolo desolador da
immobilidade oriental.

Tanta palavra dispendida, tanto tempo empregado, tanto dinheiro perdido,
tantos suores, tantos gritos, tantos copos de agua desbaratados para se
assentar nos termos em que o rei tem de cumprimentar o paiz e em quo o
paiz tem de responder aos cumprimentos do rei!

Como se, no havendo principios nenhuns de politica interna que
affirmar, no havendo nenhuns factos de politica externa que expender, o
que um rei tem que dizer ao povo e o que o povo tem que responder ao rei
podesse, sem o mais criminoso abuso das prolixidades rhetoricas,
alargar-se d'estes termos.

_Discurso da cora_: Meus senhores, Deus lhes d muitos bons dias!

_Resposta ao discurso da cora_: Senhor! Deus lhe d os mesmos!

Tudo mais  emphatico,  co,  ridiculo--e  immoral.

       *       *       *       *       *

Ha um mez inteiro que os srs. deputados, sob o pretexto de accordarem na
collocao de um adverbio ou no significado de um adjectivo para a
confeco de um periodo banal, se discutem a si proprios; chamam-se
reciprocamente _desordeiros, calumniadores e ineptos_; e documentam e
provam entre uns e outros, de partido para partido, que so
effectivamente _desordeiros, conspiradores, calumniadores e ineptos_.

As galerias enchem-se. Enchem-se de uma multido desoccupada e ociosa,
que no vae  camara levada pelas curiosidades scientificas, nem pelos
interesses patrioticos. Vae apenas disfructar os contendores, rir-se
d'elles, apupal-os no fundo da sua consciencia, e--o que  peior que
tudo--preverter-se e desmoralisar-se no contacto da corrupo. Vo vr a
maledicencia dilacerar as reputaes, como as fras nos circos romanos
dilaceravam os martyres, e aprender no exemplo dos novos gladiadores do
decoro a desprezar a honra diante do insulto, assim como nas antigas
luctas do gladio se aprendia a desprezar a vida diante da peleja.

Durante este mez as galerias do parlamento estiveram sempre cheias,
segundo asseveram os jornaes. Encheram-as empregados publicos que
desertaram as suas reparties, litteratos ambiciosos que abandonaram os
seus livros, burguezes enfastiados que deixaram o seu trabalho,
operarios em _grve_ que foram aprender a discursar nos seus comicios,
pretendentes de empregos publicos, que foram examinar os pdres por
onde podero romper os seus empenhos. E toda esta multido perigosa, que
precisaria de ouvir palavras de moralisao, de trabalho, de dignidade,
assiste durante um mez inteiro aos exercicios de uma oratoria rasteira,
sem elevao moral, sem correco artistica, cheia de arrebatamentos
estudados ao espelho, de improvisos ensaiados em familia, de coleras
sobreposse, de indignaes requentadas, de despeitos fingidos. Depois da
lucta os athletas, com os colleirinhos abatidos e sujos pelas
distillaes do suor e das tinturas indeleveis, apertam-se entre si as
suas pobres mos inoffensivas e inuteis, e fazem-se gestos amigaveis,
surriadas de bom humr, piscam-se o olho, deitam-se a lingua de fra,
riem todos, e saem juntos de brao dado, amigos e inimigos, como velhos
rabulas amaveis e cynicos, que vo comer juntos o jantar que ganharam
descompondo-se em servio da parte, que ficou na cadeia.

E eis ahi no mais alto das instituies a escola publica em que o povo
tem de aprender a ser digno e honrado!

       *       *       *       *       *

Tome-se sobre o discurso de cada deputado a somma das affirmativas e
negativas que fizeram em todos os principios geraes da politica e da
administrao: vr-se-ha pela exposio integral das verbas
correspondentes s opinies de cada partido e de cada individuo, que
todos affirmaram e que todos negaram exactamente as mesmas coisas.

Toda a questo  pessoal.  porta os correios de secretaria, com os seus
cavallos  rdea, esperam tranquillos. A divergencia versa sobre os
nomes dos individuos atraz dos quaes esses correios teem de trotar d'ali
para o Terreiro do Pao e do Terreiro do Pao para a Ajuda. Periclitam
constantemente os abusos.  foroso deslocal-os. Trata-se de saber de
quem  a vez de os passear com uma pasta encarnada dentro de um _coup_
da Companhia.

Quantos insultos, quantos improperios, quantos copos de agua, quantos
erros de grammatica se no poderiam poupar ao pudor do paiz, dando
definitivamente  companhia das carroagens este simples recado:

Os partidos so cinco--regeneradores, historicos, reformistas,
avilistas e constituintes: que os _coups_ do ministerio parem
revesadamente de tres em tres mezes s portas de cada um d'esses
senhores, e quando o poder moderador quizer saber quem so os individuos
que ho de levar-lhe o despacho em cada trimestre, que o poder moderador
se digne de o mandar saber  inscripo patente na cocheira respectiva.

Os srs. correios de secretaria seguiriam as carroagens ministeriaes, os
srs. deputados votariam calados.

Um philosopho americano conta que nas ilhas Sandwich ha a superstio do
que a fora de um inimigo morto passa para aquelle que o venceu; em
Portugal ha egual superstio com as successes do governo: a camara 
sempre da opinio do que est no poder. Portanto, com a lei que
propomos, acabariam as dissolues e cessariam as discordias.

Pela primeira vez ouvimos n'esta legislatura lanar-se ao debate e
discutir-se a palavra Republica. Vimos que a frma do governo
republicano tem no seio do parlamento defensores e adversarios, havendo
todavia um ponto em que uns e outros se acham inteiramente concordes, e
: que o povo portuguez no est por emquanto nem bastante educado nem
bastante instruido para poder sem grandes perigos acceitar a republica.


Pela nossa parte no somos monarchicos nem somos republicanos. A frma
constituitiva do poder no nos importa. O problema politico
interessa-nos pouco. E n'este ponto achamo-nos inteiramente com o nosso
tempo e com a sociedade actual. A questo grave que hoje preoccupa os
povos no  de como se ha de distribuir o poder,  de como se ha de
distribuir a riqueza. As classes que mais se agitam, as que por toda a
parte amedrontam os manutensores da ordem, as que ho de revolver e
fixar os destinos das sociedades futuras, no querem empolgar os
symbolos do governo, querem simplesmente adquirir os instrumentos do
trabalho; querem a terra e querem o capital. O problema moderno  o
problema economico. Os reis esto sendo postos ou depostos por toda a
parte sem perturbao e sem abalo. Porque? Porque ninguem se interessa
em que elles se deixem ficar ou em que elles se vo embora. Voltaire
defendia as monarchias com a razo de que preferia servir um leo que
tivesse nascido mais forte que elle, a ser devorado por cem ratos da sua
especie. Isto era no seculo XVIII, no tempo de Luiz XIV e de Frederico,
em que nas monarchias havia o leo e no havia os ratos. No
constitucionalismo moderno temos apenas os ratos que nos devoram. O leo
 uma pacifica fra embalsamada, inoffensivo ornato de _tagre_, que os
ratos trazem comsigo debaixo do brao e que lhes serve apenas de
pretexto para elles adoptarem esta frma engenhosa e delicada de nos
declararem que lhes appetece roer:--Meus senhores, o leo pede
viveres.

Se a religio da liberdade, da egualdade e da fraternidade nos no
obrigasse a considerar as sociedades e a respeital-as como
fundamentalmente autonomas, isto , independentes de todo o dominio, o
governo que ns considerariamos o mais perfeito seria o que mais se
aproximasse d'aquelle que at hoje tem dirigido os destinos da egreja
catholica. O poder supremo nas mos de um papa infallivel, arbitro
absoluto da verdade e da justia, que no pde enganar nem ser enganado;
o dominio e o governo firmado na obediencia passiva de todos os subditos
e na inclinao dada interiormente s vontades, abrangendo toda a
esphera da iniciativa humana desde os actos at os pensamentos; tendo
por policia a inquisio, o mais completo e o mais perfeito de todos
quantos tribunaes se teem creado para cohibir as infraces da lei,
tribunal que ataca o mal no seu germen, dentro da consciencia, e no
depois de j declarado em perturbaes effectivas, de modo que nem no
fundo mais recondito da alma  possivel um esconderijo para a anarchia!
Tal seria o bello ideal do governo, considerado como salva-guarda do
socego e da ordem.

Hoje porm:

Como os governos no podem j ser considerados debaixo d'esse ponto de
vista auctoritario e ordeiro dos partidos conservadores;

Como todas as sociedades tendem conjunctamente para se governarem a si
mesmas;

Como em toda a Europa, excepto na Russia, as monarchias absolutas se
transformaram em monarchias parlamentares, retomando assim os governados
a maior parte dos poderes delegados nos governantes;

Como dentro em pouco tempo, precisamente, _fatalmente_, todos os povos
impediro que subsistam outros poderes que no sejam aquelles que por
via da eleio representem a vontade popular:

Segue-se que a differena essencial das frmas actuaes de governo no
pde, como ainda ultimamente disse em um notavel livro o sr. Passy,
considerar-se seno como unicamente dependente da maior ou menor parte
de poder que ellas asseguram ao povo.

Vejamos pois agora qual  a differena que existe entre uma republica e
uma monarchia parlamentar.

A republica  o governo do povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo
por chefe do poder executivo--um presidente eleito.

A monarchia parlamentar, como ella existe em Portugal,  o governo do
povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo por chefe do poder
executivo--um rei hereditario.

O sr. Duvergier de Hauranne, em um estudo consagrado  apreciao da
republica conservadora que actualmente existe em Frana, diz que uma
monarchia constitucional, com um rei que no governa, com ministros
responsaveis e uma camara electiva sujeita sempre aos riscos de uma
dissoluo,  um dos regimes parlamentares que mais garantias oferecem 
liberdade. Todavia, observa ainda o publicista a quem nos referimos,
para o estabelecimento da monarchia  preciso a dynastia, isto : a
tradio. Quando a dynastia cae, desapparecendo ou cortando-se a
tradio como em Frana e em Hespanha, nada mais perigoso do que
suscitar ruins ambies, chamando um principe para cabide de uma cora.
N'este caso o unico systema que no offerece gravssimos perigos e
grandes complicaes intestinas e internacionaes  a republica. Ter a
monarchia com todos os foros democraticos e derribal-a por um escrupulo
de nome  grande imprudencia. No ter a monarchia e tentar
reconstituil-a sobre a cabea do primeiro forasteiro  falta de valor e
de juizo para governar.

Nos livros mais recentes consagrados aos estudos politicos e  indagao
das razes porque os povos perdem, conquistam ou conservam a liberdade,
nas obras modernas de Lewis, Brougham, Lorenz-Sten, Glinka, Mill,
Bagebot, Prvost-Paradol, no se acha differena entre republica e
monarchia representativa.

A eleio ou a heriditariedade do chefe do poder executivo no alteram
de nenhum modo as condies da compatibilidade da liberdade com a
politica. A frma do governo na egreja--o mais despotico governo de
quantos se possam imaginar-- a frma republicana. O papa  um
presidente eleito.

O poder popular no periga na coexistencia dos reis. Era Roma o imperio
funda-se esmagando os patricios. Na moderna Europa as realezas
affirmam-se despedaando as resistencias dos senhores feudaes. Os
soberanos procuram sempre na alliana do povo o appoio do mais forte.
Perante as hostilidades do clero e da nobreza Napoleo I dizia
ameaadoramente: Se lhes solto o povo estracinho-os n'um abrir e fechar
d'olhos. Napoleo III contava nas suas confisses feitas no desterro
que fra sempre socialista. A _Internacional_ tem origem em uma
expedio de operarios mandados a Londres  custa do segundo imperio
para estudarem na exposio internacional de 1862 os melhoramentos que a
Frana poderia introduzir na organisao do trabalho.

A republica pela sua parte tem sobre a monarchia uma poderosa
vantagem--a qual ordinariamente se lhe attribue como o seu maior
defeito:--a republica suscita as grandes ambies, que o
constitucionalismo restringe e at certo ponto avilta. Ora  exactamente
nas grandes ambies que se geram as grandes capacidades.

Isto porm so caracteristicos especiaes que, reunidos a muitos outros
que seria facil adduzir, podem em dadas circumstancias determinar a
escolha em favor do regime monarchico ou do regime republicano. Com
relao  liberdade os dois systemas no soffrem evidentemente
distinco: um e outro affirmam um governo livre.

A differena que existe entre governos livres e governos que o no so,
:

Que em certos paizes a vontade que dirige os negocios publicos  em
verdade a do soberano; n'outros paizes  a da nao.

Resta-nos ver em qual d'essas duas cathegorias ns nos achamos.

Portugal  indubitavelmente governado pelos seus eleitos. O rei no tem
a minima ingerencia na direco dos negocios. O unico acto de iniciativa
pessoal que temos visto praticar ao soberano consiste exclusivamente em
dar habitos de Christo a alguns cantores extrangeiros. Os cantores
guardam d'estas distinces conferidas pela cora uma saudosa lembrana.
Lemos, por exemplo, em um jornal de hoje que o baritono Cotogni mandara
a Sua Magestade uma photographia, em que o artista conseguiu fazer
reproduzir a sua pessoa na plenitude fascinadora de todos os seus meios
physicos. Um habito de Christo que se d, uma photographia com
pretenes a gentil que se recebe, e esto quites a arte e a monarchia.
Ninguem dir que por to innocentes commercios de affeio el-rei
manifeste o intuito partidario--de lanar-se nos braos de um valido. Os
unicos convivas extra-officiaes do principe--os tenores e os baritonos
de _primo-cartello_--esto fra de toda e qualquer suspeita malevola que
no seja--a de desafinarem.

Temos portanto que a mais perfeita soberania representativa na gerencia
de todos os negocios do estado existe effectivamente desassombrada e
livre sob a monarchia portugueza.

Se depois d'isto o deputado sr. Rodrigues de Freitas e os seus
correligionarios politicos, bem como todos os demais srs. deputados, nos
dizem que a republica--com ser o mais perfeito dos governos segundo uns,
ou ser um imperfeito governo segundo outros--no pde por emquanto
existir em Portugal, porque o povo carece ainda da instruco precisa
para tomar o governo de si mesmo, ho de permittir os illustres
deputados que ns tiremos d'esse seu argumento todas as concluses que
elle encerra....

E que digamos a suas excellencias:

Que, se um povo carece de capacidade para sustentar uma republica, 
egualmente incapaz de supportar um regime constitucional. Porque a
verdade, que ninguem nos poder contestar,  esta: que ns estamos sendo
governados ha muitos annos, unica e exclusivamente, pelos poderes
eleitos.

Ora, se o povo no pde exercer suffragio para a eleio do governo sob
o regime republicano, como  que pde achar-se habilitado para eleger o
governo sob o regime monarchico? Em um e outro caso temos exactamente o
mesmo processo, a mesma operao electiva, os mesmos dados na
constituio dos poderes, as mesmas consequencias no uso do mandato, os
mesmos resultados no exercicio do governo. A grande responsabilidade
eleitoral da delegao do poder  exactamente a mesma na republica e na
monarchia parlamentar.

Falta-nos a capacidade intelectual para o governo electivo da
republica?! Quem  ento que tem a posse exclusiva d'essa capacidade no
regime parlamentar da monarchia? Como  que, passando do systema
monarchico para o systema republicano, nos desapparece manh perante o
exercicio do suffragio a capacidade que temos hoje perante o mesmo
exercicio? Quem  que pensa entre a organisao parlamenlar do governo
portuguez?

Segundo os srs. deputados democratas, alguns dos quaes confessam ter a
republica pelo mais perfeito e mais cabal dos governos, quem hoje pensa
por suas excellencias e pelo povo que os elegeu  sua magestade el-rei!
Pelo que suas excellencias nos dizem, o soberano no  o poder
moderador,  o poder-pensante. Quando a cora cahir ao rei, cae-lhes
tambem a elles o cerebro. A camara electiva, a filha do povo, a
representante dos nossos interesses e dos nossos direitos, a responsavel
da fora e da lei, assim o declara! Ella s  digna, s  autonoma, s 
independente e pensante--emquanto houver um rei. No momento em que o
monarcha descer do throno, ella ser inepta. Animaes do Apocalypse, os
srs. deputados s fallam agora pela sugesto divina imposta pelo
sceptro. A tribuna, essa tribuna que ahi est, se um dia o rei lhe
voltar as costas, recusar com pudor o copo d'agua oratorio, e
pedir--herva.

       *       *       *       *       *

Ser falso o argumento da incapacidade do paiz, com que os srs.
deputados combatem a opportunidade da republica em Portugal? No . Se a
camara que ahi temos diante dos nossos olhos  a expresso legitima do
suffragio popular, o argumento  verdadeiro: o paiz  incapaz. Smente
as consequencias que esse argumento encerra no ferem smente o direito
 republica, ferem tambem o direito  liberdade. A logica no pde parar
onde  casuistica dos rabulas apraz que ella pare: a logica ha de ir at
onde o senso commum a possa acompanhar, e a logica leva o juizo, a boa
f e a verdade a declararem abertamente o seguinte: Se a camara electiva
que acaba de occupar-se da discusso d'estes principios d
effectivamente a medida legal e authentica da moral, da virtude e da
capacidade publica, ento a questo do governo no pde versar entre uma
republica e uma monarchia democratica e parlamentar. A questo  mais
complexa e mais elevada. A questo, srs. deputados,  se vossas
excellencias, teem ou no teem a capacidade precisa para serem os
representantes de um povo independente. A questo  de eleio ou de
no eleio;  de governo livre ou de governo despotico. Se os legitimos
representantes do povo prestam, ns teremos a liberdade com qualquer dos
dois governos livres--republica democratica ou monarchia parlamentar. Se
os legitimos representantes do povo no prestam, teremos--a anarchia na
republica, e teremos--a escravido na monarchia.

       *       *       *       *       *

Ora a representao nacional ha muito tempo que est sendo em Portugal
uma fara ridicula para a sciencia e uma vergonha publica para o
patriotismo. A camara  de uma ignorancia encyclopedica. Erra e insulta,
e no se esclarece nem se desaffronta,--o que prova que no tem sciencia
e que parece no ter caracter.

Poderiamos confirmar com muitos exemplos tirados dos ultimos debates
parlamentares a verdade d'essa assero, que poder ser tida por
arrojada, mas no por duvidosa. No particularisamos esses factos porque
elles envolvem nomes de homens, e ns, que no temos duvida em deixar
cahir sobre as pessoas o ridiculo, temos repugnancia em deixar pesar
sobre ellas a vergonha. A critica, se a levassemos at ahi,
tornar-se-hia uma execuo do alta justia, porque o ridiculo lava-se
na rehabilitao com que nos retemperam os actos srios, a vergonha
quando mancha o caracter faz num nodoa corrosiva e indelevel. As
_Farpas_ ferem apenas. O ferrete imprime-se com o ferro em brasa. Por
essa razo preferimos adoptar n'este assumpto a generalidade impessoal.

Faltam  camara as idas politicas e faltam-lhe os principios moraes.
D'aqui resulta uma perturbao insanavel, um mal sem cura.  a
corrupo,  a gangrena,  a paralysao senil affectando o jogo de todo
o machinismo constitucional.

Temos o socego interior e temos a paz no extrangeiro; gozamos da
liberdade politica e da liberdade individual, e no obstante no paiz
todo ha um surdo descontentamento geral.

Todos os espiritos que se applicam ao estudo dos caracteristicos que
prenunciam as evolues da liberdade, comprehendem, tanto em Portugal
como j hoje fra de Portugal, que est eminente sobre ns uma d'essas
grandes transformaes politicas que apparecem nos paizes livres sempre
que todas as questes que serviam para delimitar o campo dos
differentes partidos se acham liquidadas, e que o progresso no inspira
a creao de novas questes que sirvam de base para novos partidos.

Em Portugal os partidos acabaram ha muitos annos. No existem
divergencias de opinio sobre qualquer principio capital que interesse o
paiz inteiro. Como o interesse do paiz desappareceu, a urna fica
entregue ao arbitrio da auctoridade, e os crculos eleitoraes
convertem-se em burgos podres. Os regedores com os cabos de policia
elegem a maioria, os grandes proprietarios com os seus caseiros e os
seus amigos votam as opposies. A vontade popular  muda e passiva, o
que quer dizer que as fomes intimas da vida nacional esto obstruidas ou
seccas.

Os governos no se sustentam no poder porque faltando-lhes uma opposio
perfeitamente e fortemente constituida e assignalada, como a que separa
na Inglaterra os _tories_ e os _whigs_, no podem tambem contar com uma
maioria consistente e robusta. Para manter os apoios oscillantes o
governo acode submissamente s exigencias dos pequenos corrilhos,
promette, desdiz, cede, transige, compra, troca, vende, intriga, e cae
de fadiga, apupado e corrido.

Ha dez annos temos tido assim quarenta ministerios. Os ex-ministros
constituem pequenas dynastias de pretendentes constantemente vidos do
poder. Estes pretendentes quando no teem foras necessarias para
alcanar o governo procuram formar no paiz, por meio da sua influencia
burocratica, o partido que no teem na camara, e distribuem pelos seus
amigos os empregos publicos que arrancam ao gabinete ameaando-o com
crises de seis votos sempre dependentes do descontentamento ou da
satisfao pessoal dos pequenos chefes dos pequenos bandos.

O paiz inteiro vive n'uma miseria baixa, n'uma pobresa degradante, sem a
altivez, sem o brio dos pobres valentes, que nunca dobram a espinha nem
estendem a mo. Vejam-se no exercito os filhos do povo: nem a educao
militar consegue dar-lhes pelo menos a attitude exterior da dignidade e
da fora, o passo firme, a cabea alta, o porte determinado e energico
que caracterisam logo no primeiro aspecto physico os fortes cidados dos
paizes em que se sabe guardar e manter a liberdade!

A classe operaria faz _grves_, no que est inteiramente no seu
direito, mas faz tambem litteratura jornalistica e oratoria
sentimental,--o que ridicularisa o trabalho, humilha a austeridade do
direito e leza a legitimidade dos interesses, obrigando os
obreiros--jornalistas e oradores--a pedirem mais descanos para
discretearem, em vez de pedirem mais obra para fazerem.

O commercio est arruinado. A lavoura est decadente. A propriedade est
hypothecada.

S prosperam, s se procriam, s se reproduzem indefinidamente as
instituies de jogo e de usura, as casas de penhores e os bancos!

Os bancos so os logares de perdio em que os paizes pobres e
ambiciosos se arruinam trocando a sua pequena riqueza real por uma maior
riqueza contingente e fictcia, abdicando o trabalho e creando o jogo,
dando dinheiro e recebendo papeis.

A mocidade vive nas antecamaras do estado como os antigos poetas do
seculo passado nas salas de jantar dos fidalgos ricos. Os velhos so
agiotas ou servidores do estado. Os moos so bachareis e querem
bacharelar cerca da coisa publica e  custa da mesma coisa cerca da
qual bacharelam. Dizem-se republicanos, democratas, socialistas, fallam
muito na organisao systematica do trabalho e nos destinos das classes
laboriosas, mas no nos do em si proprios o exemplo de que o primeiro
dever de todo o cidado que se quer prezar de democrata e de livre 
elle proprio bastar para si mesmo, prover pela sua iniciativa a todas as
suas necessidades, _descentralisar-se_, trabalhar s, viver de si, que 
o unico meio de no ser explorado e de no explorar ninguem, affirmar-se
finalmente na unica frma da independencia poderosa e legitima, na unica
dignidade verdadeira e segura--o trabalho pessoal e livre. A mocidade
tem a mais elevada comprehenso dos destinos sociaes, da moral e da
justia. Unicamente a mocidade tem um defeito que ha de esterilisar a
sua iniciativa: ella pensa, mas no trabalha. Assim, se pela sua razo
ella caminha para a conquista ideal das coisas justas; pelas
necessidades da vida ella fica fatalmente na orbita subalterna das
simples coisas conquistadas. Antes de traarmos o etinerario luminoso da
nossa alma pelas espheras transcendentes, temos obrigao de aprender a
sustentar a nossa besta na viagem. Proudhon tinha razo, mas tambem
tinha um officio. E era depois de ganhar livremente o seu po como
typographo ou como caixeiro que elle ganhava livremente como philosopho
e como critico as consciencias dos outros pela justia.

       *       *       *       *       *

A raa portugueza foi lentamente e surdamente corrompida pelo antigo
despotismo monarchico, pela soberba intrepida e bulhenta dos fidalgos,
pelo oiro das conquistas e principalmente pelo monasticismo. Fizemo-nos
ociosos, vaidosos, pusilanimes, supersticiosos e fanaticos. A
religio--mais clerical que divina--penetrando-nos completamente,
dando-nos uma lei infallivel para a consciencia, prohibindo-nos pensar,
assegurando-nos a bemaventurana com o facil remedio do arrependimento,
lavando-nos de todos os crimes por meio da simples confisso d'elles,
lanou-nos na inercia passiva a respeito do problema dos nossos destinos
mais elevados. Ensinaram-nos a explicar a culpa pela tentao do demonio
e a considerarmo-nos innocentes pela absolvio dos confessores. Com
similhante theoria o dever e a responsabilidade desapparecem. A
consciencia cae na immobilidade. As altas relaes verdadeiramente
religiosas do homem com Deus desapparecem na interveno do clerigo que
se encarrega de todas as accommodaes com o co. Quando um povo assim
delega inteiramente nos seus padres o cuidado de salvarem por elle a
eternidade da sua alma, como querem que esse povo tenha para dirigir o
que  temporal e contingente o valor, a dignidade, o sentimento de
responsabilidade e de iniciativa que no teve para guardar por si mesmo
o que era divino e eterno? Quem no tem fora para recusar o dominio da
sua consciencia aos padres tambem a no pde ter para disputar a sua
liberdade aos despotas. O fanatismo prostra.

Depois a alliana com que o clero tem estreitado a ida do bem com a do
interesse espiritual e com a do sentimentalismo religioso abastarda a
noo pura da justia. Se Kant deu  moral o logar da verdadeira
elevao que lhe compete dentro da alma humana, foi precisamente porque
conseguiu separal-a do sentimento qua a enerva e do interesse que a
rebaixa.

       *       *       *       *       *

Os esforos que fizemos para conquistar a liberdade que hoje temos no
bastaram para regenerar as nossas almas do aviltamento em que por muito
tempo estiveram. Tinha-nos ficado, como um defeito nativo, a dobra
servil. A nossa vocao expecial fra por muitos annos--sermos victimas;
faltaram-nos repentinamente os algozes, no aprendemos a ser mais nada,
e ficamos n'uma desoccupao desconsolada e abatida. A guerra de que nos
proveiu a constituio deu-nos apenas uma vitalidade febril e
passageira. Logo que deixamos de discutir os principios da liberdade que
ento nos puzemos, no tornamos a fazer mais nada seno servir os
interesses pessoaes e a ambio dos individuos.

Do regime que no temos sabido manter consistente e vlido restam-nos
apenas hoje os beneficios que elle, depois de corrompido, faculta s
mediocridades ambiciosas, ao patronato,  intriga,  pusilanimidade, 
baixeza. Temos do constitucionalismo--esgotado--tudo o que elle tinha da
mau na lia: a nobilitao dos _parvenus_, a falsa aristocracia, a falsa
grandeza, a falsa virtude, o falso talento, o funccionalismo exuberante,
a arrogancia burgueza, o reinado da usura, a ruina do trabalho, a
sophismao dos principios, a decadencia da arte, a depravao do gosto,
a queda dos caracteres e dos espiritos para o futil, para o ordinario,
para o reles, para o chinfrim ... Vde a camara dos deputados: no  s a
preciso na ida, a firmeza nos principios e a nobresa na palavra o que
a ella lhe falta, falta-lhe tambem a dignidade do porte, faltam-lhe as
maneiras, falta-lhe a toilette, e  quasi to ridicula pelos seus
discursos como pelas suas gravatas; sente-se a m companhia, revela-se o
_mauvais lieu_ no simples aspecto chulo dos Ciceros pimpes.

Sem os partidos fortes, unico motor capaz de imprimir um jogo to
regular s engrenagens do regime constitucional como o que existe na
Belgica e na Inglaterra, achamo-nos quasi no estado atomistico de Hegel,
na desaggregao, em virtude da qual cada molecula social, entregue por
sua desgraa  liberdade quasi absoluta, volteia s cegas em busca de um
novo centro de attraco.  a mesma situao em que ha pouco tempo ainda
se achava a Hispanha e em que est ainda hoje a Italia. Na Italia porm
a grande obra da unificao deu  vida nacional um forte impulso
saudavel de energia patriotica. Portugal no esteve talvez nunca to
perto como hoje da pilha que o ha de estremecer e abalar.

       *       *       *       *       *

O fallarmos tanto em republica depois que em Hispanha se aclamou a
republica demonstra a leviandade de quem se preoccupa de escolher um
nome de conducta no momento em que deveria antes pensar em descobrir uma
norma de proceder. A republica hispanhola foi uma transformao
necessaria, mas arriscada e perigosa. O que a prudencia nos aconselha 
que nos preparemos para que a aproximao de uma transformao qualquer
no seja para ns um irremediavel perigo.

Querem manter a ordem? Aqui teem um meio bem simples, bem pronto: Deixem
immediatamente de manter os abusos.

Querem governar bem? Lembrem-se do que dizia Washington: A probidade  a
melhor politica.

Sejam virtuosos os que no podem ser instruidos. A intelligencia s
longamente se adquire, a virtude penetra-nos de pronto, porque a justia
 um axioma,  uma evidencia, no demanda estudos preleminares nem
reflexes subsequentes,  o principio e  o fim de si mesma.

Cato, escrevendo a seu filho, definia assim o perfeito orador
politico: Um homem de bem que sabe fallar. Ora quando se no possa ser
inteiramente o ideal de Cato, ignore-se como se falla, mas saiba-se
como se  homem de bem.

Ter, como alguns ou quasi todos os srs. deputados, uma opinio na camara
e uma opinio differente nos corredores de S. Bento, ter ainda alm
d'isto uma opinio para o Chiado e outra para a cova em que se reune o
partido,--isto no  digno nem honesto. Ter sobre um principio vital de
governao ou de politica uma opinio firme, convicta, inabalavel, 
possuir, ao mesmo tempo e por esse simples facto, a fora com que essa
opinio se deffende e se mantem. No ter opinio ou ter uma opinio
oscillante e mutavel  comprometter inteiramente os principios pela
falta da virtude.

Porque sem a virtude no poder nunca existir a democracia.

Em nenhum paiz do mundo os homens politicos so individualmente mais
probos que em Portugal; em poucos paizes do mundo elles procedem
publicamente de um modo mais adquado para deixar em duvida a consciencia
que cada um tem do dever e da honra. Luiz Filippe era tambem um dos
homens pessoalmente mais honrados que teem cingido uma cora, e todavia
poucos reis espalharam em volta do seu reinado mais elementos de
corrupo. Foi d'esse bom homem que se creou a phrase proudhouniana de
que elle dominou pelo despreso, assim como dominaram--Cesar e Bonaparte
pela admirao, Sylla e Robespierre pelo terror.

Triste reinado aquelle em que o socego e a paz publica se baseam no
desdem publico! Debaixo d'essa ataraxia superficial do povo est a
gangrena e a dissoluo latente do estado.

Quer-se a virtude publica, a virtude official, a virtude parlamentar, a
virtude de Montesquieu, que  a mola indispensavel de todo o estado
popular, e que consiste resumidamente em preferir--o dever 
conveniencia, o direito  fora, a justia  popularidade e ao exito.

De sciencia basta a precisa para se entender que o verdadeiro interesse
de todos reside no respeito da justia para cada um, e que  n'essa
comprehenso e n'esse culto da justia que verdadeiramente se baseia a
liberdade.

Lincoln, o maior homem que tem produzido a democracia no tinha estudos
nem letras. Tinha apenas a f. Acreditava na immortalidade da sua alma,
acreditava em Deus e acreditava na justia--a imagem immortal da
perfeio absoluta. E to pouco bastou para que esse obscuro plebeu
entrasse na gloria, assignalando-se immortalmente com os dois maiores
actos que a homem algum foi ainda permittido commetter--dar a liberdade
aos negros e dar a paz  America.

       *       *       *       *       *

Leitor amigo, se queres sinceramente contribuir nos teus meios para
fortificar a tua patria, d-lhe modestamente, na pequena orbita da tua
influencia, entre os teus parentes e os teus amigos, aquillo que ella
mais precisa de ter para sua defesa dentro da casa de cada cidado; no
se trata da fora do teu brao, trata-se da rectido do teu juizo: s
prudente e justo.

No caminho em que nos puzeram aquelles por quem nos temos deixado
conduzir ns no vamos livremente para a escolha da frma de um governo
livre; vamos submissamente para a sujeio voluntaria dos dominios
despoticos. Para que esses poderes nos subjuguem, basta simplesmente que
nos invada a anarchia que nos est batendo  porta. Na perturbao
geral, no conflicto, no perigo da fazenda e da vida, o egoismo
sacrificar sem nenhuma disputa a liberdade. Porque a liberdade, por
mais bella que ella seja,  na existencia uma circumstancia; a ordem  a
condio essencial--intrinseca--da vida, a garantia do trabalho e a
segurana do po. Quem poder calcular o numero de liberdades que ns
sacrificaremos  ordem no momento em que a desordem comear a
facultar-nos o direito ao governo, com a suppresso do direito ao
jantar?...  das profundidades demagogicas que saem sempre  periferia
social os tyrannos. J Aristoteles dizia que o despota comea no
demagogo; assim nasceram Pisistrato em Athenas, Dinys em Siracusa,
Theagenes em Megara.

O nosso profundo mal est na nossa profunda indifferena. Aos que
ignoram os perigos d'esta enfermidade social lembraremos que quando
Napoleo desembarcou no golpho Juan no foi a fora dos que o defendiam
que o reconduziu ao throno, foi a inercia dos que o no atacaram.

Ora as apathias, querido leitor sensato, curam-se pelos regimes
constituintes. Os meios revulsivos aggravam a prostrao e produzem o
desfallecimento e a morte.

Quando o principio vital da auctoridade se acha ameaado sob a sua
forma politica--no governo--, a primeira obrigao do povo  manter esse
principio sob a sua forma philosophica--na razo.

       *       *       *       *       *

O exercito portuguez acaba de ser dotado com um melhoramento que o
colloca nas condies de rivalisar vantajosamente com as foras mais
intelligentemente armadas e equipadas da Europa....

A cavallaria da guarda municipal de Lisboa trocou os antigos estribos de
ferro por estribos de sola, inteiros, cobertos, agasalhados, verdadeiros
gabinetes de repouso suspensos de uns loros--coisa to confortavel que
as familias que teem d'estes estribos dispensam-se de ter fogo, e
depois de jantar, no inverno, quando a neve cae, essas familias vo ler
o jornal e tomar o caf--para os estribos.

O acto de profunda estrategia e alto valor militar de que procedeu
acharem-se os nossos guerreiros dotados com estribos de sola torna-os
desde hoje e para todo sempre invenciveis.

Porque at aqui havia uma considerao que impallidecia os espiritos
dos mais denodados homens de guerra, dos mais corajosos e valentes
soldados:  que, no ardor das pelejas, quando no campo da batalha a
artilheria varria os esquadres e os corseis offegantes, relinchando,
com o pello hirto e os ilhaes rasgados pelas esporas, galopavam
freneticamente para o fogo dos quadrados e para as barreiras metalicas,
scintillantes e asperas das baionetas, se por fatalidade chovia, aos
nossos soldados acontecia ento esta catastrophe pavorosa--molhavam os
ps!

De modo que, de repente, era mister arvorar nos basties a bandeira
branca, os esquadres recuavam a trote largo, os chapos de chuva
abriam-se, os cartuchos das pastilhas Regnauld e dos rebuados de avenca
saiam das ambulancias, um parlamentario ia para o inimigo, e ns
pediamos treguas de algumas horas para que a nossa cavallaria--mudasse
de piugas.

       *       *       *       *       *

Agora no. Agora, com os novos estribos de sola, podemos estar certos de
que, para todos os effeitos do valor, da disciplina militar, da arte e
do amor da guerra, a nossa cavallaria poder sempre contar com este
infallivel penhor do cumprimento do dever e do despreso da vida--ter os
ps quentes!

Smente pede a equidade que, uma vez que a cavallaria tem estribos de
sola, a infanteria seja egualmente dotada--com galochas de borracha.

Depois do que,--adoptadas estas disposies to temerosas e aguerridas e
estabelecido em campanha o uso terrivel das palmilhas impremiaveis, do
sapato de ourello e do cobertor de papa--tendo o exercito os seus ps
quentes diffinitivamente garantidos pelas instituies--elle ser feroz!

       *       *       *       *       *

Foi submettido  votao da camara dos srs. deputados a seguinte moo
de ordem apresentada pelo sr. Barros e Cunha, deputado por Silves, ao
qual no passado numero das _Farpas_ chammos erradamente _deputado por
Tavira_.

Que nos perde s.ex.--e Tavira!

Eis a moo:

A camara dos deputados affirma que so inabalaveis no povo portuguez os
sentimentos de amor s instituies liberaes, de respeito e affeio 
dynastia constitucional, e que a nao far os ultimos sacrificios para
manter a independencia do reino contra quaesquer perigos que possam
ameaal-a, e passa  ordem do dia.

Procedendo-se em seguida a uma votao nominal disseram _approvo_ todos
os srs. deputados.

       *       *       *       *       *

O sr. Barros e Cunha tinha motivado a sua moo com esta phrase:

Parece-me conveniente que nos pontos da Europa aonde tenha chegado a
noticia de que n'esta terra houve uma conspirao tremenda contra a sua
independencia, possa haver a certeza de que a representao nacional
est ao lado d'essa independencia, da ordem e da dynastia
constitucional.

Ora como o sr. Barros e Cunha entende e a camara approva que o simples
juramento de fidelidade prestado pelos srs. deputados bem como a alta
qualificao procedente do seu mandato no so bastante parte para
garantir nos differentes _pontos da Europa_ a incumplicidade de suas
ex.'as nos crimes commettidos no paiz, achamos bom que o mesmo sr.
Barros e Cunha repita e faa votar a sua moo a cada delicto novo que
apparecer.

E s assim suas excellencias se podero considerar regosijadoramente
illibados.

       *       *       *       *       *

Logo na sesso immediata quella em que foi approvada a moo a que nos
referimos, declarou o deputado sr. Francisco de Albuquerque que tinha
desapparecido das estaes officiaes, sem que se podesse saber do seu
destino o espolio de Jos Antonio, criado de servir, fallecido em Lisboa
ha dois annos.

Depois de to grave accusao levantada no mesmo seio do parlamento, no
tendo nem o sr. presidente nem o governo restituido immediatamente ao
queixoso o espolio de Jos Antonio, ou ns no entendemos bem o espirito
da moo do sr. Barros e Cunha ou era outra vez o momento de sua ex.
illucidar os _pontos da Europa_ sob a sua innocencia e a dos seus
collegas, mandando para a mesa a seguinte moo:

A camara dos deputados affirma que no foi ella que furtou o espolio do
criado de servir Jos Antonio, porque ella tem muito menos amor aos
espolios dos criados do que s instituies liberaes,  monarchia e 
independencia, e passa  ordem do dia.

Porque o sr. Barros e Cunha abriu este precedente:

Que  dignidade da camara cumpre justificar-se perante certos pontos da
Europa dos crimes que no praticou, assoar-se, e passar  ordem do dia.

       *       *       *       *       *

Mais declarou o dito sr. Francisco de Albuquerque que na estrada de
Gouva a Mangualde falta a parte que se comprehende entre a ponte de
Palhs e a villa de Mangualde.

Projecto de moo offerecido ao sr. Barros e Cunha:

A camara, tendo mostrado os forros das algibeiras e tendo-se
desabotoado para evidenciar que se no apropriou da estada de Mangualde,
passa  ordem do dia--e a abotoar-se.

       *       *       *       *       *

Entre as moes que propmos e aquella que o sr. Barros e Cunha adoptou
ha apenas uma differena:  que as nossas, posto o principio de sua
ex., so logicas, so racionaes, baseam-se na verdade, referem-se a
crimes cujos reus se no conhecem e em que a camara  innocente: por
tanto a justificao  cabida. A do sr. Barros e Cunha refere-se a
crimes, cujos cumplices esto processados--d'aqui, inutil--e affirma o
que no --pelo que: falsa. Logo  uma justificao absurda.

       *       *       *       *       *

Affirma a dita moo o que no : vamos demonstral-o. O sr. Barros e
Cunha e a camara asseguram que _so inabalaveis no povo portuguez os
sentimentos de amor s instituies, de respeito e affeio  dynastia_.

No entanto por outro lado o mesmo sr. Barros e Cunha e a camara affirmam
que o povo conspira e que suas excellencias mesmo teem conspirado--no
certamente em favor das instituies vigentes nem da dynastia reinante.

O sr. Barros e Cunha disse textualmente, poucos dias depois da sua
moo:

Eu vou fazer uma confisso  camara; eu sinceramente acredito em
tentativas permanentes contra a independencia do paiz, contra as
instituies e contra a dynastia ... Esses perigos no posso occultar 
camara que existem ... Extranho que o poder moderador no convocasse a
camara ... pelo duplo perigo que podia correr a dynastia, a liberdade e
as instituies.

Ora  este paiz, em que _a dynastia, a liberdade e as instituies
correm perigo, em que so permanentes as tentativas contra a
independencia, contra as instituies e contra a monarchia_, que a
camara assegura ser _inabalavel nos seus sentimentos de amor s
instituies, de respeito e affeio  dynastia_!

O partido reformista affirma que quando era poder luctava contra
conspiraes continuadas.

O partido historico caiu victima de uma conspirao.

O partido regenerador abafa uma conspirao. O sr. Teixeira de
Vasconcellos disse ha dias: _N'este ponto_ (as conspiraes) _chegou-se
ao mais a que se podia chegar_.

Effectivamente, depois de tudo isto, chegou-se a este ponto: de todos os
partidos se reunirem e votarem unanimemente--que ninguem conspira!

       *       *       *       *       *

Sublime patria! vae, prosegue magestosa e olympica no teu destino
luminoso! Nada mais te queremos. Detivemos-te apenas para isto, para te
espetar, aqui assim, por cima, no alto da cuia, como um gancho, o sr.
Barros e Cunha. Sobre a fronte das figuras immortaes costumam os
artistas collocar uma estrella; sobre a tua cabea,  patria, o sr.
Barros e Cunha, assim fixado como um symbolo, lembrar aos vindouros a
pombinha branca, de assucar--to casta!--das lampreias d'ovos.

       *       *       *       *       *

Esta manh Lisboa vestida do mais rigoroso lucto via passar um cortejo
funebre. O povo estava em alas nas ruas. As janellas cheias de senhoras.
Toda a gente conservava o chapo na cabea. Conversava-se, ria-se,
faziam-se grandes gestos, havia mesmo um movimento desusado de
conversao, de interesse e de _verve_. Os officiaes cumprimentavam as
senhoras com o sorriso e com a espada. Os soldados conversavam com o
povo. E, de parte a parte, tomando-se para assumpto o enterro,
trocavam-se ponderaes alegres, chistosas, _grivoises_, entre os que
estavam com os cigarros nos beios e os que passavam com as armas em
funeral.

Ao mesmo tempo, em um coche puxado por oito cavallos e coberto com um
longo panno preto, precedido de outro coche em que era levada a cora
imperial envolta em crepe, dizem que a indo para a derradeira morada,
entre as musicas funebres dos regimentos em frma e os chistes das
multides indifferentes, o cadaver da senhora duqueza de Bragana.

Dizia-se fallando-se d'ella:

Deixou pouco.

Que fez ella ao que tinha?

Que miseravel! que mesquinha!

E um jornal catholico escreveu:

O testamento da senhora duqueza de Bragana lembra a sorte grande em
cautellas de vinte e cinco.

Ns pensmos ento nas distinces da stirpe e do sangue que fazem os
homens deseguaes.

Entre ns, os plebeus, quando as nossas mes deixam de existir, ns
acompanhamol-as  sepultura, silenciosos e recolhidos, lembrando-nos um
pouco dos carinhos que lhes merecemos, dos dces conselhos que ellas nos
deram, das boas palavras desinteressadas e amigas que lhes escutamos.

Nas nossas aldeias, quando ao fim da tarde um enterro passa nos campos,
levado por quatro homens, seguido do prior com sobrepeliz, atravessando
silenciosamente as cearas, e fazendo dobrar as espigas dos trigos e as
flres encarnadas das papoulas que salpicam as messes, as raparigas que
passam ajoelham-se e persignam-se e os trabalhadores tiram o chapo,
suspendem o trabalho e pensam um momento n'aquelle para quem principiou
o descano eterno.

E se alguem se ri das mulheres que ns levamos  sepultura, consideramos
que esses insultam a memoria d'aquelles que ns amamos, e punimos por
nossas proprias mos esse aggravo, punimol-o a varapau nas
encrusilhadas,  faca nas esquinas das ruas, e  espada nos duellos.

As imperatrizes--coitadas!--teem de resignar-se  sua triste condio de
imperatrizes: passar a vida entre gente mediocre, mercenaria,
interesseira, aduladora e estupida; passar na morte entre as alas
ostentosas de curiosos e mal creados. Vivas, ellas teem a sua liberdade
de entes racionaes e os seus affectos e dedicaes de mulher
escravisados  formalidade,  etiqueta, s praxes; moribundas cerca-as
ainda a pompa que estabelece um diapaso ao arranco, uma melodia ao
soluo e um gesto nobre s agonias; e finalmente nem depois de mortas
lhes  dado esperar que se lhes respeite o direito, para qualquer outro
ente indiscutivel, de legarem como quizerem e a quem quizerem o seu
triste dinheiro, o qual nenhum de ns quereria ter ganhado em
similhantes condies e com eguaes amarguras!

Parece-nos que  levar um pouco longe de mais a modestia democratica o
supprmo-nos to pouca coisa, que aquelles que reinaram tenham que
descer tanto para que os consideremos nossos eguaes!  crear uma nova
gerarchia para os soberanos o estabelecer que perante o respeito que
devemos a todos os nossos similhantes que morrem, os principes tenham de
considerar-se menos que quaesquer outros.

       *       *       *       *       *

 certo que o _Diario do Governo_ ordenou que tomassemos luto de dois
mezes pela princesa fallecida. Como porm quando chegar a nossa vez de
sermos levados para o cemiterio, nos custar admittir que a
circumstancia de consagrar umas calas pretas  nossa morte auctorise
alguem a imprimir chocarrices cerca das nossas ultimas vontades, ns
proporiamos antes, como tributo ao fallecimento da senhora duqueza de
Bragana, que nos revestissemos um pouco menos de luto pela princesa
illustre que desappareceu da lista civil, e um pouco mais de respeito
pela mulher digna e virtuosa que morreu.

       *       *       *       *       *

Por occasio dos disturbios populares com que a resistencia aos impostos
perturbou a ordem em Tavira, o commandante da fora armada, chamado a
reprimir a desordem, sendo desobedecido e insultado pela multido
insurgida, carregou os revoltosos, resultando ficarem alguns d'estes
feridos e dois mortos.

Ora com as revoltas portuguezas estava estabelecido pelo uso, pelo
programma, pela mesma natureza d'ellas, que no morria ninguem, que
ninguem era ferido.

Em todos os grandes ajuntamentos  vulgar moverem-se disputas,
levantarem-se resistencias, fazerem-se ameaas e trocarem-se mesmo
algumas bengaladas. Succede isto em toda a parte, nos toiros, nos bailes
de mascaras, nos theatros, nos circos, nos fogos de artificio, nas
illuminaes publicas e at nas egrejas. S onde nunca similhante coisa
acontecia era nas revoltas! Nas revoltas tudo era contentamento,
satisfao e paz! A bem conhecida e temerosa _idra da anarchia_ era
recebida em Portugal como uma d'essas doces e benevolas pessoas de cujos
sorrisos se suspendem as promessas dos sales confortaveis, dos verdes
jardins balsamicos, das alegres partidas da _croquet_ e do bom ch
preto. Quando s multides portuguezas se annuncia s.ex. a idra, as
multides portuguezas abrem alas, sorrindo, e a anarchia comprimentando
a um e outro lado, agitando o leque, mergulhando-se na roda do vestido
para fazer mesuras, passa, para ir lanar o grito de sedio--ao piano.

Ora como as coisas em Tavira se no passaram precisamente por este modo
usual, que fez o illustre o pacifico sr. delegado do ministerio publico
perante o procedimento extranho do commandante da fora armada, que
desembainhara a sua espada e carregara ingenuamente a revolta? O sr.
delegado querelou do commandante da fora armada. Querelou por que
delicto? _Por abuso de defesa_.

Oh! esta phrase do ministerio publico  boa,  bem symptomatica, 
caracteristica,  genial! Um militar incumbido de manter a ordem, tendo
atacado a desordem, querelado pelo ministerio publico--por _abuso de
defeza_.

       *       *       *       *       *

Pois que! Julgava ento o exercito que o estado lhe dava as suas
clavinas, as suas bayonetas e os seus sabres para que elle, uma vez
armado, se servisse das armas! No! nunca! Defenda-se, mas _no abuse_.
Defenda-se, mas no arme as bayonetas nem carregue as espingardas, nem
desembainhe as espadas. Defenda-se, simplesmente, como a delicadesa o
pede, como o pede o brio, o valor, a disciplina militar:
contemporisando, levando-nos por bem, lisongeando-nos, distraindo-nos.
Quantas vezes a gente se revolta por _spleen_, por tedio, por vapores,
por sympathias gastricas! Quantas vezes no dizemos ns pela manh,
espreguiando-nos e mostrando ao espelho uma lingua ensaburrada: Meu
Deus, que farei hoje? irei almoar com Dolores, cortarei a cabea ao
rei, ou tomarei bismutho? E assim  que frequentemente faz a gente
barricadas por no ter mais nada que fazer. Por tanto que n'estes
momentos o exercito procure distrahir o povo enfastiado; que lhe toque
musicas, que lhe recite versos, que lhe mostre photographias, que lhe
diga assim:--A proposito; se fossemos tomar bither? ou se comessemos
uma enxova com um copo de cognac para nos raspar o esophago? Anda! vem
d'ahi, bom povo, jogaremos os domins!

E se o povo ainda assim resistir--diacho ... ento, que o exercito fuja!

Mas se foge, o conselho de guerra fuzila-o ...

Mas se no foge, o ministerio publico querela-o ...

Por consequencia o melhor de tudo  que o exercito tome uma deliberao
energica e heroica: Que o exercito se v deitar! No ha impedimento
nenhum para isto. Sim, podes ir deitar-te,  exercito. Adeus. Boa noite.
Melicio vela!

       *       *       *       *       *

A camara dos dignos deputados, no tendo tido em nenhuma questo
politica interna nem uma theoria, nem uma ida, nem um dito, nem um
gesto sequer, que accusasse a intelligencia, o espirito, a penetrao, a
vivacidade, resolveu aproveitar um incidente da politica extrangeira
para provar ao paiz que no estava no periodo imbecil dos amolecimentos
de cerebro, e, referindo-se  abdicao do rei Amadeu, a camara, por
meio de um esforo extraordinario, botou ao mundo--uma figura de
rhetorica. Depois do qu, o mundo, sensibilisado com tamanho dispendio
de fora, teve pela sua parte vontade de botar  camara--uma funda.

       *       *       *       *       *

Consta que todos os partidos se alliaram para to alta manifestao
patriotica. Todos entenderam que importava apoiar sem restrices o
governo n'esta importantissima questo physiologica. Antes mesmo de
entrar na grave questo da fazenda a camara achou pois indispensavel
provar ao paiz ao cabo de um mez de trabalhos parlamentares este
phenomeno previo: que ella no era demente. Produziram-se varios
alvitres tendentes a dar ao publico o convencimento cabal d'essa
verdade obscura. Occorreu: advinhar uma charada, conjugar um verbo,
ouvir o sr. Melicio cerca da immortalidade da alma ou obrigar o sr.
Barros e Cunha em nome do credito das instituies a dizer a taboada.
Por fim preferiu-se na vasta regio do saber humano o campo da
rhetorica, e resolveu-se fazer estalar uma figura.

O dia do grande espectaculo, da terrivel prova chegou. As galerias
encheram-se. O aspecto da camara era recolhido e solemne: ella estava
sentada nos seus logares, tinha a mo mettida na abertura do collete e a
barba feita. Havia um silencio palpitante e commovido. Ento um sr.
deputado, com voz pausada e firme disse:

Sr. presidente chegou esta manh a Lisboa, depois de ter
espontaneamente e livremente abdicado a cora do visinho reino, aquelle
a quem verdadeiramente podemos chamar ...

Era o momento! ia partir a figura! O orador deteve-se um instante,
bamboou a cabea, puxou o catarrho das commoes supremas, tomou na
bocca um golo de agua, e fincando o queixo no peito recolheu-se por um
momento com a figura e com o bochecho para dentro da sua gravata. A
multido immovel escutava. O silencio era tal que se ouvia crescerem os
tortulhos na lama das botas do sr. Arrobas, repentinamente aquecidas por
um raio de enthusiasmo fecundo e creador!

O orador, immergindo de dentro da gravata e proseguindo--Aquelle a quem
verdadeiramente podemos chamar--_O sol no occaso!_ (Prolongados
apoiados de todos os lados da camara e do banco dos srs. ministros.
Vozes: Muito bem! muito bem!)

       *       *       *       *       *

Tal foi a notavel figura oratoria que a camara resolveu dar  luz na
presente legislatura como testemunho insuspeito e irrecusavel dos altos
quilates do seu espirito e da comprehenso profunda em que ella se acha
das terriveis e mysteriosas relaes que podem prender no terreno da
eloquencia parlamentar a queda dos reis e os phenomenos meteorologicos.

Sim,  principe infeliz e sympathico, cavalleiro e bravo, que acabas de
provar ao mundo que, a respeito da tua vida, sabes egualmente
arriscal-a e dirigil-a; que allias singularmente o valor e o senso
commum.... O valor com que entraste na Hispanha, alegre, destemida e
vermelha, como a capa que palpita  virao do circo, encobrindo uma
espada, no brao nervoso e astuto de um toureiro ... O senso commum com
que finalmente trocaste a Hispanha irrequieta e fremente pelos tepidos
vales da tua patria, nos suburbios tranquillos de Sorrento e de Almafi,
 beira dos golphos innundados de azul ...

Sim,  principe, aprende n'essa figura rhetorica que Portugal te envia,
a affinidade estreita que une para identicos destinos os codigos das
monarchias e as folhinhas de algibeira! Tu que abdicaste, o que s tu?
Escuta-o,  principe! Tu s--_o sol no occaso_. Teu augusto av, que
tambem abdicou,  o chefe d'essa dynastia planetaria; teu av  _Sol no
occaso_ I; tu s _Sol no occaso_ II; teu filho primogenito  sua alteza
_Sol no occaso_ presumptivo. Que em sua altissima guarda vos tenham os
deuses immortaes, os deuses--guarda-soes! Que to augusta dynastia se
prolongue por muitos e dilatados annos, at que a posteridade possa
ainda reconhecer e honrar o mui alto o poderoso _Sol no occaso_ XIX,
por feliz antonomasia ditada pelo refrigerio dos povos _O entre nuvens
com brisa fresca!_

       *       *       *       *       *

Tal foi o effeito de religioso acatamento que a desencerrao do to
vehemente quanto audacioso e brilhante tropo produziu no animo de toda a
camara, que nenhum dos oradores que se occuparam no parlamento da ultima
evoluo politica da Hispanha tornou a dar ao rei abdicado outro nome
que no fosse esse. Smente: como a vivida imaginao, como a fervida
phantasia peninsular de cada um, conseguiu retocar por variegadas cres
proprias to engenhosa imagem! Assim vemos que durante a sesso a que
nos referimos, sua alteza o principe Amadeu foi consecutivamente
modificado em sua nativa e originaria designao pelas maneiras
seguintes:

Sol no occaso ... como ha bem pouco disse n'esta casa uma eloquente e
inspirada voz!

Sol no occaso ... qual lhe chamou momentos ha no recinto d'esta erudicta
assembla, labio to selecto como attico!

Sol no occaso ... s me  licito empregar a phrase penetrante que no
ha muito ouvi cair ali assim da bocca do disserto orador, meu illustre
amigo! (indicando o sr. Barros e Cunha).

Sol no occaso ... segundo calorosa e convictamente aqui tem sido dito
por todas as boccas excepto pela do fecundo e espontaneo orador, meu
immortal amigo, o sr. Jayme Moniz!

(O sr. Jayme Moniz erguendo-se, collocando uma mo sobre o corao e
estendendo a outra energicamente no espao, profere um inspirado
monosylabo, que no foi ouvido na mesa dos tachigraphos).

Sol no occaso ... direi pela segunda vez, se a camara permitte que
comecemos a repetir aquillo que todos e cada um dos oradores teem j ...

(Muitas vozes: _Repita-se! repita-se!_ O sr. presidente: _Deu a hora_.
Vozes: _Muito bem! muito bem!_ Todos os oradores se cumprimentam uns aos
outros. O jubilo  geral. O sr. Barros e Cunha, dando para a meza alguns
d'aquelles passos que antigamente eram um menuete da corte e que hoje
so o andar de s.ex., tira o _Times_ do bolso e vo fallar, uma ida
porm lhe occorre, elle detem-se, toma rapidamente notas para uma
interpellao; seus pequenos olhos, contentes por saberem fingir-se
malignos, rebolem; e o ministerio, pallido, treme olhando Barros,
emquanto sobre o craneo d'este, eburneo e lustroso como o casto de uma
badine, os derradeiros raios do sol atravessando as gelosias desenham
luminosamente--uma pauta. O sr. Arrobas, festivo, vae a pr na cabea a
mesa da presidencia, julgando-a o seu chapeu. O sr. Lobo d'Avila, muito
commovido chora no seio do seu ex-correligionario politico e sempre
amigo fiel, Melicio--o fagueiro. E o sympathico sr. padre Boavida
desapparece como um relampago, levado da sala em triumpho, ao collo de
um desconhecido).

       *       *       *       *       *

_quelle que jurou assassinar-me_

Meu senhor--Tendo recebido do Rio de Janeiro, pelo ultimo paquete, a sua
obsequiosa carta, o sendo ella anonyma, tomo a liberdade de lhe dirigir
a minha resposta por meio d'estas obscuras paginas, as quaes vejo com
prazer que merecem ao meu amigo a benevolencia de as ler. Como no
posso fixar por outro modo a pessoa a quem tenho a honra de me dirigir,
consinta que eu transcreva a parte mais importante das suas presadas
regras. Eu respondo  pessoa que me escreveu isto:

Tiveste a ousadia de insultar com tuas estupidas _Farpas_ o monarcha
sobre cuja cabea repousa a cora immaculada do imperio da Santa Cruz?
Tu tiveste essa ousadia, gallego, pois bem juro-te que no dia...... de
...... d'este anno 1873 hei de comparecer em tua casa s dez horas da
manh e ahi far-te-hei saltar os miolos com uma bala. Espera-me, no
fujas, que  desnecessrio! Has de cair em meu poder mais tarde ou mais
cedo, embora para isso consuma toda a minha fortuna.

Omitto n'este extracto o dia e o mez--os quaes o meu amigo fixa com a
mais amavel pontualidade--porque, sendo um negocio inteiramente
particular o da pequena operao que se me projecta fazer, julgo
indiscreto que a policia se lembre de o vir testemunhar; basta-nos um
desenhista que esboce a scena para os jornaes illustrados que houverem
de occupar-se do caso.

Chegada a hora que se me aprasa para o fim da minha vida,  bem claro
que entre: ns ambos, se no podero trocar explicaes previas ...
Porque, comprehende bem, que se o meu caro commettesse a inconveniencia
de me repintar prolixamente todos os pormenores do modo como projecta
pregar-me o cerebro n'um muro, eu poderia no achar de um prazer divino
o passeio patriitico da sua bala atravez do meu craneo, e em summa, n'um
momento irreflectido, nervoso, animal, de instincto, cortar a questo
atirando com o meu amigo do alto do meu terceiro andar  rua.

Releve-me portanto que lhe escreva algumas das coisas que sentiria no
poder referir-lhe no momento da nossa futura entrevista. O prazo que me
assignala, se por um lado o podemos considerar curto como limite para
viver;  felizmente asss longo como tempo para conversar.

Meu amigo--Sem falsa modestia e sem fingida humildade, francamente,
sinceramente, eis aqui a respeito da morte que me promette a minha
opinio:

Eu no mereo o fim apparatoso e dramatico preparado ao meu pequeno e
obscuro destino sobre a face da terra. Sem que eu seja absolutamente de
uma mysantropia que obscurea a fama de Young ou que faa uma
concorrencia perigosa  reputao de Job, ainda assim por entre as
convidas e cordiaes risadas que me inspiram os parvos, confesso-lhe que
me no entreluz a vida to iriada de cr de rosa e de azul, que o meu
empenho do a gozar por mais algum anno obrigue uma pessoa, to rica como
o meu amigo denota ser, a _consumir a sua fortuna toda_  espera do
momento em que eu me ache resolvido a arriscar-me pelo prazer de
conhecer a amavel pessoa que me procura. Ha de at produzir admirao no
Brazil--onde custa tudo to caro!--o barato que ha de sair ao meu amigo
o seu encontro comigo. A modicidade do meu preo chega a este ponto de
barateza que nem costumo levar nada--por me achar em casa!

Resisto  morte unicamente por duas razes, das quaes a segunda  que me
apraz a lucta; resisto-lhe, mas no lhe fujo, porque  meu parecer que a
vida no vale os incommodos afflictivos que todas as retiradas trazem
ordinariamente comsigo.

Ora, deste modo, uma vez admittida a morte como o termo logico e fatal
da vida, a bala fecha to concisamente um destino como o ponto final
fecha o discurso.

Demais conveiu-se n'esta falsa opinio, toda favoravel  memoria dos
assassinados: que s s victimas do homicidio se concede o prestigio com
que se premeiam os martyres, e que s temos por assassinados aquelles
que entram na posteridade pelo bello portico por onde desappareceram,
violentamente mortos pelos tiros ou pelas punhaladas, o politico Lincoln
e o jornalista Courrier.

Ninguem commemora nos registos brilhantes do martyrio aquellas que,
dentro da sua mina, emquanto c fra uma bala amiga fixava o encephalo
de outros mais felizes n'uma luminosa pagina de historia, succumbiam
obscuramente de desalento ou de cansao na galeria tenebrosa dos
trabalhos forados da imaginao e da intelligencia!

Ai! no  unicamente por meio de um golpe de punhal applicado ao
corao, ou por meio de um tiro disparado n'um ouvido, que podemos
mandar um homem para o tumulo. Quantos para l vo caminhando, menos
pallidos que Antony, menos desgrenhados que o principe Hamlet,--to
correctos que parecem philosophos ou to pobres que parecem
felizes,--irremissivelmente deportados da vida pelos decretos surdos e
implacaveis da desgraa!

No fim de contas, sem monopolisarmos em favor do ninguem o interesse que
inspiram os destinos dramaticos, quem  que no tem o seu mal, o mal que
o ha de matar, burguezmente levado mais ou menos sobre o corao, como
uma carta de amor, como um memorial, como um bilhete da loteria?!

Quer que lhe diga tudo? Ha certo tempo que eu me no sentia
completamente bem. De quando em quando, de repente, enrouquecia,
affrontava-me a digesto, tinha palpitaes, tinha o pulso nervoso,
sentia a displicencia, a melancholia.

Antes de ter a sua carta, sabe o que eu suppunha que tinha?...

Vermes!

O meu amigo apparece-me do Brazil como uma revelao pathologica. A sua
existencia risca inteiramente das minhas apprehenses a suspeita que eu
comeava a nutrir--de uma solitaria. Sei agora, com aquella viva alegria
com que a gente acompanha a explicao achada aos grandes mysterios
aziaticos, que o que eu tenho --o meu amigo. Considero-o j como uma
parte integrante e interessantissima da minha economia. Trago-o comigo
como um abcesso, levo-o para toda a parte como um defluxo. O meu amigo 
a minha enfermidade incuravel,  a minha morte para d'aqui a poucos
mezes, e todavia--como  commodo isto!--o meu amigo no me obriga a
tossir, nem a gargarejar, nem a trazer a uma bota cortada com dois
golpes em cruz, nem usar uma bambinella sobre um olho. Como o meu amigo
 leve! No me doe, no me affronta, no me d crescimentos, nem
vertigens, nem gazes, nem rugidos, nem picadas lancinantes no ventre!

No o lanceto, no o espremo, no o aparo, no lhe propino o _pronto
allivio_ nem lhe ministro aguas de Vidago!

E por fim morro, acabo exactamente como qualquer outro, retiro do mundo
o pequeno material que fornecia  critica,  maledicencia, ao despeito
de muitos que me odeiam e  estima talvez de alguns poucos que por
ventura me amam ... vou descansar para debaixo dos cyprestes--bastante
para debaixo! e depois de ter repartido o meu espirito com os homens,
que me mandaram embora, repartirei o meu corpo com os bons bichos da
terra, que me no expulsaro nunca--elles!--da sua convivencia gulosa,
mas discreta.

A unica differena entre mim e a grande maioria dos que morrem ser--que
elles tero soffrido os tramites lentos e dolorosos das enfermidades
mortaes, uns tero tido um tumor no cerebro, um amolecimento na espinha,
um scirrho no estomago; eu terei apenas tido--o meu amigo! o meu amigo
que at o momento da crise final se patentear levissimamente, com o
caracter mais benigno porque se pode manifestar um amigo:--ausente!

Espalhada a noticia da minha morte, os benevolos rumores sympathicos
zumbiro como doiradas abelhas sobre a minha memoria.

--Coitado! ainda hontem o vi passar com umas luvas amarellas!

--Sabem ... era aquelle com quem ns embirravamos ...

--O que trazia o bigode assim?...

--Esse mesmo!

--Pois, senhor, tenho pena! D-me c lume ...

E algumas outras coisas doces e impereciveis.

E do meu amigo diro apenas:

A fera, tendo bebido o sangue da victima, retirou-se.

No, o bello papel que me destina no drama que imaginou nunca lh'o
agradecerei bastante! Unicamente o ser immolado quillo que o meu amigo
to eloquentemente chama _a cora immaculada do imperio de Santa Cruz_,
isso apenas,  que me parece um tanto violento. Quando Sua Magestade
Imperial esteve em Lisboa pediu varias cabeas de porco, mas no me
consta que entre essas cabeas Sua Magestade tivesse especialisado
designadamente a minha ... Ora, se Sua Magestade se no pronunciou agora
directamente a meu respeito, o meu amigo  talvez demasiado solicito com
os appetites do principe, servindo-me ao imperial banquete--com feijo
branco.

       *       *       *       *       *

Na camara dos pares alguns prelados da egreja portugueza convidaram com
encarecidas instancias o governo a alargar as misses no ultramar,
promovendo a fundao de seminrios de instruco ecclesiastica, onde os
soldados de Jesus possam adestrar-se no uso do gladio chammejante e
civilisador com que se vence para a f o gentio ignorante e idolatra.

Sem desapprovarmos os meios propostos pelos dignos prelados para o fim
de recolher ao aprisco as ovelhas tresmalhadas do armento christo,
perguntaremos apenas se a salvao das almas rudes espalhadas pelos
sertes dos dominios portugueses no lucraria tambem alguma coisa em que
os dignos prelados, despachados para aquellas possesses fossem occupar
nas suas dioceses os unicos logares que convm  misso edificante e
redemptora dos representantes de Christo o dos alumnos de Paulo. Porque,
emfim, no ser precisamente porque suas excellencias passeiam no velho
mundo sceptico uma pequena cruz suspensa de um cordo verde, nem porque
na camara dos pares do reino suas excellencias lavram finamente algumas
figuras de rhetorica sentimental e lacrimosa, que alguns pobres negros
selvagens, confiados aos cuidados espirituaes de suas excellenecas,
encontraro nas nossas dioceses devolutas quem os console e quem os
instrua. Que por tanto nos queiram permittir os senhores prelados do
ultramar, oradores em S. Bento, que, propondo-nos ns dar  eloquencia
de suas excellencias o seu natural e legitimo destino, lhes digamos--com
o vate:

_Aos infieis, senhores, aos infieis!_

       *       *       *       *       *

D'entre as palavras ultimamente proferidas nos debates parlamentares
resalta com o relevo poderoso com que se accusam as fortes
individualidades uma phrase singularmente cortante, rispida, sincera do
ministro do reino.

O sr. Antonio Rodrigues Sampaio, offerecendo  camara, do seu logar de
ministro da cora um volume do _Espectro_, disse que se honrava mais de
ter feito aquelle livro do que de sentar-se n'aquelle logar, e que, se a
camara achasse as duas coisas incompativeis, elle abandonaria a sua
pasta para ir adoptar o seu livro.

O sr. Sampaio, actual ministro do reino, tem sido ultimamente muito mais
aggredido na camara e na imprensa pelo seu antigo denodo de democrata e
pela sua _verve_ de pamphletario, do que pelos seus erros e desmandos
de membro do actual gabinete.

 facil guerra a que se faz a um escriptor no momento traioeiro em que
elle no dispe nem da sua liberdade nem da sua penna para as
represalias terriveis do talento injuriado. No ha nada mais commodo
para as pessoas fracas ou ineptas do que acharem opportunidade de
poderem determinar como um crime a iniciativa dos fortes. A incapacidade
colloca-se assim na logica que leva a consideral-a--pelos effeitos
passivos da sua inanidade--como uma especie de virtude.

O processo d'aquelle que por uma causa qualquer--boa ou m, justa ou
iniqua--arriscou a sua vida em cima de uma barricada, no pde todavia
ser instaurado assim, pelas toupeiras que estavam inuteis e tremulas no
fundo dos seus buracos emquanto o accusado, combatendo, fazia estremecer
o cho.

Elle injuriou a rainha? Pois seja assim. Injuriar uma rainha, quando
ella tem na sua maxima fora o poder e o mando, quando ella tem a ordem
guardada pelas baionetas dos seus regimentos em armas, injurial-a em um
papel publico, quando na praa publica esto carregadas as espingardas
que cobriram a lei das rolhas, injuriar, ento, era servir uma ida,
era fazer uma resistencia e era cumprir um sacrificio.

Fallam-nos na honra inviolavel da mulher honrada. Mas perdo ... Quantas
mulheres honradas teem sido diffamadas na impunidade das confidencias
amigaveis, com a hypocrisia das reticencias, com a fatuidade dos
sorrisos, com a malevolencia das alluses?

Quantas reputaes puras teem alguns demolido pelos effeitos corrosivos
de uma nodoa, que ficou para sempre indelevel, e que elles, a rir, entre
amigos, fumando um _carrajal_, no Aterro ou no Chiado, cuspiram
desenfadadamente sobre a honra de uma mulher que passava?!

Vamos, com franqueza, meus dignos, meus graves senhores: no  verdade
que muitas vezes teem os senhores mesmos feito esta aco torpe e
covarde, no declarando-a n'um livro, lanando-a na discusso e
respondendo por ella, mas fazendo-a passar surdamente, como um boato de
salo, como uma curiosidade galante, como uma chronica de moda, lanada
de bocca em bocca, infamemente, a coberto da responsabilidade, da
contestao, da policia correccional, do veredictum do publico, e das
bengalas particulares?! Pois bem!  a isso que se chama diffamar. Isso 
que  atacar e destruir o principio da inviolabilidade da honra
domestica.

A publicidade  como a lana de Tlepho que sarava as mesmas feridas que
fazia. Se a senhora D. Maria II tem de passar  historia com o nome de
_virtuosa_, a consagrao d'esse epitheto provem-lhe da discusso
publica da sua virtude.

Infelizmente a senhora D. Maria II no resumia na sua personalidade a
reputao total das senhoras portuguesas e nem todas estas podero como
a victima do _Espectro_, sair gloriosamente da galeria das calumniadas!
As martyres da surda maledicencia obscura e irresponsavel essas  que
ficam para sempre na suspeita ou na ignominia.

Preferir a paternidade de um pamphleto escripto com o desinteresse da
paixo e do talento  triste gloria burgueza e constitucional de
ministro portuguez  ter um sentimento elevado e  dar um exemplo justo.
Porque em verdade ser apenas um ministro--unico estado social que nos
dispensa de sermos alguma outra coisa--no  propriamente um destino.
Para que uma existencia actue assignaladamente nas relaes dos homens e
marque o signal da sua passagem  preciso que ella se affirme
eminentemente ou na justia ou no sentimento ou na arte--pela coragem,
pelo sacrificio ou pelo talento--que so as tres maximas constellaes
do trabalho, constituindo a familia, a obra ou o combate.

Aquelle que fez um livro, em que se debateram todas as idas e todos os
interesses do seu tempo e da sua sociedade, movendo os espiritos,
inclinando as vontades, influindo nas consciencias, esse  o homem que
viveu.

Ter gerido uma pasta no constitucionalismo portuguez  unicamente ter
passado no mundo.

O governo em Portugal  apenas o capitolio das mediocridades
venturosas--com um ganso,--o sr. Jayme Moniz.

       *       *       *       *       *

Durante o espao da tempo a cuja chronica este volume se refere sairam 
luz alguns novos jornaes. D'estes conhecemos tres: a _Regenerao_, a
_Patria_ e a _Republica_. Estes tres jornaes, como a maior parte dos
periodicos portuguezes so--anonymos.

       *       *       *       *       *

Ora eis aqui uma coisa que nunca podemos comprehender na legislao por
que se regula o direito de escrever e a liberdade de pensar:--que possa
alguem por qualquer razo que seja dispensar-se de assignar o que
escreve! O maior abuso da liberdade de imprensa e ao mesmo tempo o unico
que a lei portugueza no s no pune, mas auctorisa e regula 
este:--no assignar.

Ha apenas em Portugal um s periodico politico em que cada artigo 
assignado pelo jornalista que o fez. Este periodico  o _Diario da
Tarde_, folha portuense, onde cada um dos redactores no s acceita mas
declara acceitar todos os dias, por meio da sua assignatura, a
responsabilidade completa de toda a infraco commettida, bem como os
effeiios de todas as resistencias, de todas as controversias, de todas
as antipathias que tenha podido suscitar.

Esta coisa to simples, para a qual muitos outros escriptores
portuguezes teem o preciso valor e a necessaria independencia, ninguem
mais a tem adoptado como condio imprescriptivel do direito que cada um
tem de emittir pela publicidade o seu pensamento.

       *       *       *       *       *

A primeira razo por que se no assigna  esta:

A empresa do jornal, servindo-se d'elle para qualquer fim que seja,
convem-lhe sempre absorver na sua exclusiva personalidade todos os meios
de influencia, todos os instrumentos de trabalho que fazem mover a sua
machina. Para que isto se consiga toma-se necessario estabelecer como
lei fundamental da efficacia do apparelho jornal: que o que escreve se
eclipse inteiramente por detraz do que paga. Isto  apenas uma das
muitas exploraes fataes da intelligencia e do trabalho pelo dinheiro.
N'este caso os resultados so graves para os interesses do espirito, da
dignidade e da razo.

Por um lado o escriptor, acobertado e escondido sempre no anonymo,
perde insensivelmente a comprehenso da coherencia em que se basea a
firmeza dos seus principios e a logica do seu systema moral. Comea por
transigir com a opinio alheia e acaba por abdicar a sua perante as
necessidades e as indicaes da empresa. De resto, como no 
_responsavel_, como no fim de contas ninguem o conhece, o auctor
resigna-sel  assim que se fazem os escriptores indignos, porque na
imprensa  indigno de collocar uma palavra todo aquelle que no tem uma
opinio. O escriptor de manivela  um escandalo para a razo e uma
catastrophe para a justia.

Por outro lado o empresario de jornal, conseguindo sustental-o pelo
apoio do seu partido ou pelo ganho proveniente dos seus annuncios, pde
sem vexame pr ao trabalho litterario o seu aguadeiro no logar da
entidade anonyma da sua redaco. E assim os periodicos enchem-se
naturalmente com a collaborao gratuita ou barata dos _troisimes
dessous_ da intelligencia e do estudo. D'aqui a progressiva decadencia
que se observa no jornalismo portuguez, e a fatalidade d'este resultado:
quanto mais se l peor se escreve.

Ha outros casos em que o escriptor, apezar de inteiramente livre para
assignar ou para no assignar, no assigna. Isto ento importa
immediatamente a condemnao da competencia moral do quem assim procede.

Se se entende que  tal a inutilidade da coisa escripta, que da
publicao d'ella no vir consequencia nenhuma, ento no se escreva.
Na imprensa tudo quanto  inutil  nocivo. Supprimam, ao povo que l
durante dez minutos por dia, todas as banalidades e todas as inepcias
que elle absorve n'esse tempo, e o povo comear a instruir-se nos seus
dez minutos de leitura. Tudo o que a educao do povo no recebe do
jornal rouba-o o jornal  educao do povo.

Se o escripto lanado ao publico envolve uma responsabilidade,  preciso
que a tome exactamente aquelle que lanou esse escripto; se elle encerra
apenas uma ida, o publico a quem ella se offerece tem direito de saber
quem  aquelle que lh'a envia. Eu exijo o nome do que manipula as drogas
que sou chamado a engulir, porque a verdade  esta: que, por melhor que
me parea uma limonada de citrato de magnezia ou uma fatia de
_galantine_, suspeito de uma e da outra se me disserem que a _galantine_
foi feita pelo sr. Jara, boticario, e a magnezia pelo sr, Colombe,
salchicheiro.

Ora uns tantos sujeitos que todas as manhs vem jurar-me nas suas
respectivas gazetas que so muito republicanos, muito monarchicos, muito
socialistas ou muito auctoritarios--tudo isto com a expressa condio de
que nunca hei de saber quem elles so--do-me exactamente aquelle
receio:--medicarem-me com paio de per, ou servirem-me jantares de
magnezia.

       *       *       *       *       *

Tinhamos j Melicio, o _Jos Prudhomme_ constitucionalismo portuguez.
Agora ultimamente surgiu Barros e Cunha, o _Pickuick_ do systema
representativo nacional.

Estes dois marcos levantados um ao lado do outro constituem um portico,
abalisam uma poca, enquadram um seculo.

Os Tacitos e os Livios do futuro diro da politica actual:

Como fossem mortos Manuel Mendes Enxundia e Bertoldinho, appareceram
sobre a face da terra Melicio e Barros e Cunha, e tendo estes
determinado que a luz se fizesse, e batendo cada um d'elles em sua
respectiva nuca uma palmada magica, de cada uma de suas boccas rompeu
para o seculo attonito uma torcida,--e a luz foi feita. Os homens, os
principios, as instituies, toda a caravana longa e lenta de uma
gerao que passa, ia indo, caminhando no tempo, emquanto elles dois, na
frente, deitando sempre torcida, allumiavam. Se este seculo immortal no
isempto de pequenas sombras intermittentes que algumas vezes--ai de
ns!--o empanaram e entenebreceram,  porque elles--o discreto Pickuick
e o profundo Prudhomme luzitanos, obedecendo  lei fatal de que nem
mesmo so isemptos os mais portentosos luminares, de quando em quando se
detinham,--geniaes, assombrosos e tremendos--para se espevitarem.

       *       *       *       *       *

O que estes dois grandes homens, verdadeiramente monumentaes e eternos,
teem feito para o movimento geral das idas e para a affirmao
historica do progresso, no fazemos ns mais do que balbucial-o. A
posteridade, dominando o grande conjuncto dos successos  que ha de
fazer a devida justia, inteira e completa,  iniciativa de Barros e de
Melicio. O ponto de vista nimiamente estreito e exiguo dos
contemporaneos no permitte  simples chronica o descriminar todas as
guitas complicadas, todos os torcidos arames, por meio dos quaes o
historiador averiguar como todos os factos e todas as idas do tempo
actual se ligavam reconditamente ao impulso magnetico d'estes dois
vares extraordinarios!

No futuro se ver como pelo mero jogo das correntes electricas que
vibram a opinio se explicam os grandes effeitos no paiz produzidos
pelas pequeninas causas nestes dois personagens. Constatar-se-ha
scientificamente este phenomeno para muitos de ns despercebido:--Barros
ter sde e o paiz pedir capil! Melicio comer pevide de abobora e o
estado deitar a tenia! Barros em camisa tirar debaixo do travesseiro o
barrete de algodo branco--casto symbolo dos sonhos immaculados--e a
nao ter somno! Melicio ter dores cruciantes nos calos, e a opinio
publica, descalando-se, arrojar as botas s faces da hypocrisia!

Agora mesmo n'este momento, quando as agitaes da Hispanha commovem os
espiritos patrioticos, quando as negras apprehenses ibericas ensombram
as alegras da Baixa e seus innocentes jogos--outrora to puros!--quando
se espera o accordo das grandes potencias para a fixao dos nossos
destinos nacionaes, poucos se lembraro talvez que ha muito tempo que
esta questo foi cortada pela penna fulminante de Melicio em uma
correspondencia que o _Commercio do Porto_ se resignou a publicar nas
suas columnas, por no haver na cidade um templo de Jano em cujas portas
ella se gravasse em letras de oiro! No se tratava ainda ento de
nacionalidades nem de aggregaes, fallava-se apenas da configurao do
solo e dizia-se em um documento hispanhol--a _Peninsula Iberica_, ao que
Melicio respondeu com um terrivel brado: Peninsula iberica, no!
nunca!

Bem feita coisa da parte do excelso patriota! Pavorosa lio 
geographia--e  canalha!

Peninsula iberica, tu! tu reles pedao da superficie solida do globo
cercada de agua por todos os lados excepto por um, pelo qual ficas
unida ao continente! Tu, s por isso, seres uma das peninsulas, a
Peninsula Iberica?... No, nunca o sers. S tudo o que quizeres menos
isso. S nuvem, s parteira, s questo da fazenda, s compota de
pecego. Mas peninsula!... Olha quem! Querias-te fazer peninsula, minha
tola?... No! ainda c ha um homem para te dar nas ventas para traz, 
perra vil!

E depois de vibrado por Melicio este golpe to fundo na questo iberica,
os lusos appellam ainda para as potencias, e j se no lembram do que
devem a Melicio! Ah! ingratos! ah! ladres!

Fallaes na alliana da Inglaterra, no favor do sr. Thiers, na
benevolencia do imperador Guilherme ... Pudera! aquelle que acabou com as
peninsulas ainda c est vivo para chegar a roupa ao corpo aos
congressos ... Boa duvida! No que elle ainda a tem,  cabeceira da cama,
a sua bengala invencivel, a bengala dos seus avs, a mesma bengala com
cujo casto Certorius batia nos dentes ao namorar aquella que foi mais
tarde a virtuosa me de seus filhos!

Aproxima-se a conquista? adianta-se a invaso?... Que venham! Cada fita
de ceroulas que cinge os artelhos de Melicio ser uma barreira! Cada
boto de seu collete um obuz! Cada um dos seus calos um baluarte--de
lho de perdiz!

Se o extrangeiro vier, ns, tranquillos, atirar-lhe-hemos com Melicio--o
extracto de peste concentrado e fulminante dos inimigos da patria--e das
peninsulas!

       *       *       *       *       *

Agora--Barros.

Este publicou o seu relatorio sobre a emigrao portugueza para o
Brazil--grande obra a que promettemos consagrar estudos criticos
consecutivos durante um anno! N'este livro o immortal philosopho explica
o facto da emigrao e justifica-o por um modo que pe o alludido
phenomeno social para todo sempre fra de controversia e de discusso.

Como o explica, como o justifica elle?

Meu Deus! por um argumento bem simples, e que todavia ainda no houvera
occorrido a ninguem ...--Pelo precedente das andorinhas!

       *       *       *       *       *

Sempre que ns temos tido a immerecida honra da poder contemplar com
atteno e respeito a configurao pyramidal da cabea do grande homem,
sempre que temos attentado, recolhidos e mudos, no seu bello craneo,
magestosamente elevado no occipicio, como se elle usasse uma cuia--por
dentro,--ns temos dito do varo illustre, como Chenier de si mesmo:

Elle tem alguma coisa na cabea!

Oh! sim, elle tinha n'ella a theoria das andorinhas, esquecida ao mais
excentrico e original dos nossos compatriotas, o cavalheiro Machado, o
celebre amigo dos passaros, um dos mais interessantes perfis da galeria
parisiense de Champfleury!

Achar o precedente das andorinhas como justificao dos emigrantes  ter
um verdadeiro rasgo de genio. Mas o genio no surge de repente, o genio
 a paciencia, como disse Buffon. Consideremos,  criticos, quantos
trabalhos, quantos estudos, quantas dres no teriam precedido no
intellecto do grande politico a laborosa gestao da sua lei immortal!

Ponderemos o sabio, absorto, contemplativo, extatico, considerando
simultaneamente em suas intimas correlaes e consanguineas affinidades
o povo--e o passarinho!

Elle, o philosopho, sabe bem o que  a miseria no proletariado, elle
conhece de certo _Ginx's Baby_, o monstruoso producto humano das falsas
civilisaes, elle tem lido certamente Malthus, e queremos que lhe
arranquem j um dente da bocca, ao grande homem, se elle no tiver do
pauperismo, da fome, do salario e dos systemas ideaes de Fourier, de
Owen, de Saint-Simon e de Proudhon, uma comprehenso to perfeita como a
que lhe assiste a respeito das unhas dos seus proprios dedos!

Previamente armado de to solidos principios e de to profundos estudos,
como seria bello o poder vel-o depois, na obra, no momento augusto e
sacrosanto em que a ida lhe veiu!...

Estamos em que no poderia deixar de ter sido--no campo! O sabio no
bosque, meditando, qual pastorinho de cordeiros brancos nas paizagens de
lyrio e rosa pintadas por Wateau no setim dos leques Luiz XV! Seria ao
toque poetico das ave-marias, como se permittiria dizer um serralheiro
portuguez em _grve_. O ar embalsamado pelos perfumes da baunilha e dos
laranjaes em flr, os zagaes tangendo frautas ou danando na relva com
suas pastoras, e ao longe, por entre o fumosinho que ondeia sobre o
tecto das cabanas, ao longe, na quebrada do monte, voejando em torno do
corucheu da velha ermida em ruinas--- ellas, as duas, as mysticas
amantes do philosopho, as ternas balisas de seu scismar--a andorinha e a
questo social--batendo a aza, abrindo o biquinho e rasgando juntas as
amplides do azul em phantasticos arabescos....

E ento seria que no espirito apocalyptico do mestre, na mente do
magnanimo doutor em extase, de repente, como um estalo, como um abcesso
que rebenta, como um inchao que estoira, lhe veiu a ida de que a
andorinha poetica explicava satisfactoriamente o operario faminto, e que
evidentemente nada mais semelhante diante dos olhos da sciencia a um
carpinteiro com mulher e oito creanas ganhando tres tostes por dia, do
que a avezinha innocente que esvoaa em torno de gothico balo, ou
paira no vergel, bebendo a perola matutina do orvalho no calice da rosa!

Como tudo isto  grande e ao mesmo tempo lindo da parte do sr. Barros e
Cunha! Como  bem _Paulo e Virgnia_! bem _Menino da mata e seu co
Piloto_! bem puro cheiro de alfazema! bem legitima pomada alvssima!

       *       *       *       *       *

No se detiveram porm ahi os servios prestados ao mundo pelo grande
homem no breve decurso de tempo a que esta chronica se refere.

Mais dotou elle a sua patria com a ida de uma economia, cujo alcance
profundo obrigou s.ex. o prelado viziense a arrojar de si com desalento
e desdem o facalho legendario com que a s.ex. aprouve arrancar a
manteiga dos 15 por cento do po dos empregados publicos, em que ella se
comia, e dos escriptos reformistas, em que ella se embrulhava!

O Mirabeau de Olho, ponderando que cada navio que entrava no Tejo
recebia successivamente em tres botes tres visitas--a do porto, a da
saude e da alfandega--cogitou um momento e teve esta ida enorme:

Que em vez de se gastarem tres botes para tres visitas, fossem as tres
visitas n'um s bote!

E foi o que o fogoso tribuno immediatamente propoz ao governo em um
discurso verdadeiramente maravilboso de lucidez e de profundidade.

       *       *       *       *       *

Se a politica no aproveitar esta proposta do sabio, que a arte pelo
menos se encarregue de immortalisar para eterno exemplo e lio dos
homens o acto de arrojada iniciativa e sublime denodo do cidado
portentoso que pretendeu economisar  patria--dois botes!

Que em nossos dias ainda nos seja dado ver em tela ou em estatua, o
Pickuick de Silves, regressando das crtes do seu paiz, austero e
simples como Cincinato, detendo-se  porta do seu tegurio e pedindo a
extranhos que lhe tirem do bolso das calas a chave do trinco, por que
elle, o sublime martyr da patria, est impossibilitado de abrir
pessoalmente a porta do seu albergue, por trazer debaixo de cada brao
para o sagrado recolhimento da vida intima os dois botes arrancados por
elle com mo firme s luctas acerbas do funccionalismo no reino dos seus
maiores!

O que sobretudo pedimos  posteridade  que no v confundir este
heroe--sr. Barros e Cunha--com este outro--sr. Barros e S. Porque--
iluso!--elles dois parecem-se fatalmente tanto um com outro, como se
parecem--dois coelhos,--dois porta-machados--ou dois pretos.

       *       *       *       *       *

No mundo civilisado est-se tratando n'este momento de fazer isto--um
caminho de ferro de 1:600 leguas, de Nijni-Nowogorod a Pekin.

Uma vez alinhavada sobre o solo do nosso velho continente essa enorme
fita de ferro, ns poderemos ir do Aterro  capital da China em menos de
um mez, estendendo-nos n'um fauteuil, abrindo um livro, accendendo um
charuto e tendo apenas o trabalho de nos vestirmos e de nos despirmos
algumas vezes, porque atravessaremos as mais diversas latitudes, as mais
extranhas regies, os mais oppostos climas, com as suas novas paizagens,
novos ceus, novas floras e novas faunas.

Passaremos por Madrid, por Paris, por S. Petersburgo e por Moscow.

Veremos Nijni-Nowogorod, com as suas gregas cathedraes de cupolas de
oiro e a sua feira de Makariev, na qual se juntam quatrocentas mil
pessoas.

Deixaremos o nosso bilhete de visita em Kazan, a tartara, rebolindo-se
nos profundos ruidos do seu commercio com a Siberia, com a Boukharia e
com a Russia europa.

Visitaremos Perm, os seus numerosos lagos o os seus grandes rebanhos
felpudos de merinos e de martas famosas, d'aquellas martas de que o Czar
deu  Patti uma capa, no valor de cem mil francos!

Apearemos para aquecer os ps em Tobolsk, a capital da Siberia, onde o
thermometro desce a 45 graus abaixo de zero, e onde os rios esto
gelados nove mezes por anno.

Descanaremos em Irkoutsk, em cujas espessas florestas se refugiaram os
Strelitz.

Respiraremos um momento em Ourga, a dos sete mil sacerdotes, ou em
Kiakhta, j na fronteira chineza, onde descanam de ordinario as
caravanas do ch....

E tocaremos a final em Pekin, onde, se no soubermos fazer mais nada,
comeremos ninhos de andorinhas--uma especie de letria insipida, cara
como um d'aquelles molhos de Luculo feitos de perolas delidas!--mas se
soubermos o mantchou e o chinez, cujo alphabeto tem apenas 36:785
letras, poderemos fazer exame no grande tribunal da historia e
litteratura, do celeste imperio, sermos approvados mandarins e usarmos
no chapeu o boto de ouro que distingue os litteratos dos demais
subditos do grande Filho do Ceu.

E tudo isto em menos do trinta dias, com menos de quinhentas libras, no
espao de um romance de Michel Levy, de uma garrafa de absintho e de uma
caixa de brevas, sobre as azas ardentes do monstro chamado o _Trem
expresso_--o heroe do poeta Campoamor--, que devora o espao e o tempo,
fazendo-os rolar em redemoinhos em volta do seu rastro, emquanto elle
galga os abysmos, bebe os desertos, penetra as cordilheiras, e fura por
baixo do Cenis ou do Atlas, como uma bala por um tubo!

E assim poder a civilisao, por desfastio, verter amanh a rua dos
Fanqueiros nos jardins do gro-mogol Alemguir, do mesmo modo como
atravez de um funil se pde passar um liquido asqueroso e infecto de um
barril immundo para um fino cristal facetado!

       *       *       *       *       *

A camara dos srs. deputados....

Oh! ns no podemos resolver-nos a separarmo-nos da camara dos srs.
deputados, que foi, durante este ultimo lapso de tempo, o nosso
encanto, a nossa delicia, o afago mimoso da nossa vida! Entre ella, que
se vae fechar, e este livrinho, que vae chegar ao seu fim--ns estamos
como o pagem namorado que  porta dos paos do rei Arthur, ao primeiro
cantico da cotovia, tem sellado o cavallo que escarva o cho e remorde o
freio, emquanto apoiada ao balo rendilhado a bella, a linda princeza
apaixonada, envolve o cavalleiro matinal n'um longo olhar de amor, e
permanece commovida e pallida para lhe enviar, quando elle fr
desapparecer na volta do caminho, o seu derradeiro beijo, com aquelle
aceno--to profundamente triste para os que partem--de um leno branco
que palpita, ao longe!

E ns, como o pagem, como o menestrel, como o bardo, voltando a cabea,
abrimos da mo as redeas e as clinas do ginete, descemos o p do
estribo, e vimos dizer ainda  amada lacrimosa uma palavra terna....

A camara pois--diziamos--querendo collocar-se ao par do que a
civilisao pratca de mais arrojado  distancia de alguns centos de
leguas de S. Bento, decidiu egualmente,  similhana da maravilha
realisada pela abertura do caminho de ferro de Moscow a Pekin, operar
um phenomeno--mais modesto,  verdade, mas no menos portentoso:

Pegar n'uma garrafa e metter-lhe dentro um cantaro, um caneco, um
barril, uma pipa ou um tonel!

E, consultando-se sobre a capacidade que lhe assistia para resolver este
problema, a camara reconheceu que poderia desempenhal-o. E mandou para a
camara dos Pares, devidamente estudada, meditada, escripta, impressa e
revista, a celebre e immortal lei--_do engarrafamento das vasilhas_, na
qual lei se l textualmente no artigo 2. o seguinte:

Ficam tambem auctorisadas as camaras municipaes, nos termos do artigo
antecedente, a lanar taxas sobre o engarrafamento do quaesquer
vasilhas.

Do qual textual artigo 2. da precitada lei se deixa claramente ver que
a camara--intemerata e altiva--se acha habilitada para proceder  face
da Europa a este milagre:

_Engarrafar vasilhas_.

       *       *       *       *       *

E com isto,  camara, adeus! Tu vaes regressar em breve da scena
parlamentar--onde boiaste por algum tempo, impertinente e inutil, como
uma mosca caida sobre uma taa de creme--para o refugio inviolavel da
vida intima. Vae em paz, amiga; volta aos cuidados bucolicos e simples
das tuas couves,  guarda intelligente e pacifica do teu gallinheiro,
aos succos do teu lombo de porco,  frescura do teu bragal, aos teus
bons lenoes duradouros e fartos, recolhidos na grande arca e fortemente
perfumados com os doces cheiros nativos do linho, do feno e da ma
camoeza!

Vae,  camara, e se queres um bom conselho, ouve-o: no tornes c!

Para se viver no grande meio sempre ruidoso, sempre agitado, sempre
coberto de luz de um foco civilisador,  preciso que se tenha uma
d'estas coisas: um nome, uma fortuna, um talento, uma aptido; que se
seja uma causa de actividade ou um instrumento de trabalho: um operario,
um capitalista ou um sabio.

Ora nenhuma d'aquellas coisas tu tens, e nada d'isto tu s.

Profundamente mediocre, o teu destino  seres profundamente obscura.

Uma coisa extremamente difficil, que no conseguirs nunca,  fazer
leis; mas ha outra coisa muito facil, para que tu ests superiormente
habilitada e a que deves de todo em todo consagrar-te,-- no as fazer.

No fazer leis,  camara, eis a tua especialidade! cultiva-a, e sers
grande.

No fizeste nada, no sabes fazer coisa alguma, no representas nenhuma
grande coisa que antes de ti se fizesse? No  verdade isto?! Pois bem,
no mundo moderno, na sociedade actual, quem est n'esse caso s tem um
meio de no ser ridiculo:-- ficar em casa.

C fra quem no domina e governa a critica tem de sujeitar-se a ser
trinchado por ella.... Fica pois em casa, tranquilla no teu rap e no
teu voltarete.

No queiras parecer-te com estes jovens burguezes que se arruinam, que
se encanalham, que se desgraam voluntariamente para se darem nos sales
um falso ar de homens do mundo com que s elles se enganam. Chamam-se a
si mesmos os janotas, pem a gravata branca e a casaca preta como a
outra gente, frisam-se um pouco mais do que os outros, acompanham-se das
suas mulheres ou das suas irms, de vestidos de bareje barata e de
narizes que, se se vendessem, custariam ainda mais barato do que as
barejes.... Correm de sala em sala, julgam-se no mais alto mundo, e
cerceiam no boi do jantar os excessos de despeza a que os obriga a sua
triste representao--de remendos brancos em pano preto! No sabem, no
veem que os homens verdadeiramente distinctos e as mulheres
verdadeiramente elegantes no acceitam seno com repulso os contactos
das suas mos vermelhas e suadas, no lhes dando seno despreso--porque
elles no teem nascimento, nem dinheiro, nem ar, nem _toilette_, nem
orthographia, nem mo de redea!

O que estes so--na elegancia, no queiras tu,  camara, voltar a sel-o,
como o foste--na politica! No tornes c.

Adeus. Vae com Nossa Senhora. Se te no abraamos, se te no damos um
beijo, desculpa....  que ns temos razes para desconfiar,--pelas tuas
moes d'ordem, pelos teus projectos de lei e pelos teus
discursos,--que tu usas _patchouly_ e comes alho.





End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da
Politica, das Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz

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Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.net

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
